SBAR: o protocolo que salva vidas na comunicação hospitalar

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Protocolo SBAR para comunicação estruturada em hospitais - Situação Background Avaliação Recomendação

Um método criado para submarinos nucleares se tornou uma das ferramentas mais eficazes para evitar mortes em hospitais. Conheça o SBAR e entenda por que a Joint Commission o recomenda como padrão de comunicação clínica.

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, um hospital de médio porte realiza cerca de 4.000 transições de cuidado por dia, são, portanto, quatro mil momentos em que informações sobre pacientes passam de um profissional para outro, de um plantão para o seguinte e, muitas vezes, de um setor para outro.

Justamente por isso, é nesses momentos que a maioria dos erros acontece. De fato, nos Estados Unidos, falhas de comunicação durante a transição de cuidados estão na raiz de 30% das ações judiciais por erro médico e são responsáveis por até 70% dos eventos adversos em hospitais.

Diante desse cenário, a solução não é trabalhar mais — mas sim comunicar melhor. E é exatamente para isso que existe o SBAR.

60-70% dos eventos adversos em hospitais têm a má comunicação como causa principal

Journal of Critical Care / Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente

Mas o que é SBAR?

Antes de tudo, SBAR é um acrônimo para Situação, Background (histórico), Avaliação e Recomendação. É um método estruturado de comunicação que garante que todas as informações essenciais sejam transmitidas de forma clara, concisa e padronizada.

Originalmente, o protocolo foi desenvolvido originalmente pela Marinha dos Estados Unidos para comunicação entre oficiais em submarinos nucleares — um ambiente onde erros de comunicação podem ser fatais. Na década de 2000, o sistema de saúde Kaiser Permanente adaptou o método para uso hospitalar, e desde então ele se espalhou pelo mundo.

Atualmente, o SBAR é recomendado tanto pela Joint Commission International (JCI) quanto pelo Ministério da Saúde do Brasil como uma ferramenta essencial para melhorar a segurança do paciente.

📋 Os 4 elementos do SBAR

S – Situação:

Em primeiro lugar, responda: o que está acontecendo agora? Identifique-se, identifique o paciente e descreva o problema atual de forma objetiva.

B – Background

Em seguida, apresente o contexto. Inclua histórico clínico relevante, diagnósticos, medicações em uso e alergias.

A – Avaliação:

Na sequência, traga sua análise. Explique sua interpretação da situação e o que você acredita que esteja acontecendo.

R – Recomendação:

Por fim, deixe claro o que você sugere. Indique as ações necessárias ou solicite explicitamente o que precisa.

SBAR na prática: um exemplo real

Para ilustrar, imagine uma enfermeira que precisa comunicar ao médico plantonista sobre a deterioração clínica de um paciente. A seguir, veja a diferença entre uma comunicação não estruturada e o uso do SBAR.

❌ Comunicação sem estrutura

"Doutor, não sei o que está acontecendo com o Sr. Pedro, mas já pedi um eletrocardiograma. Ele estava um pouco sudoreico quando teve a dor, mas já dei todos os medicamentos inclusive a insulina e o antibiótico. Ele foi submetido a uma colectomia ontem..."

Como resultado, as informações ficam desorganizadas, sem hierarquia de urgência, obrigando o médico a “montar um quebra-cabeça” mentalmente.

✅ Comunicação com SBAR

Situação: "Dr. Silva, aqui é a enfermeira Ana da UTI. O Sr. Pedro, leito 12, está apresentando dor torácica há 15 minutos."

Background: "Ele tem 65 anos, foi submetido a colectomia ontem, é diabético e hipertenso. Usa insulina e losartana."

Avaliação: "Está sudoreico, PA 160x100, FC 110. Acredito que pode ser um evento cardíaco. Já solicitei ECG."

Recomendação: "Seria importante que o senhor viesse avaliá-lo imediatamente."

Dessa forma, a informação chega clara, hierarquizada e com avaliação e recomendação objetivas.

Por que o SBAR funciona?

A eficácia do SBAR não é apenas intuitiva, mas também é sustentada por evidências científicas. Por exemplo, uma revisão sistemática publicada no BMJ Open analisou 11 estudos sobre a implementação do SBAR e encontrou evidências moderadas de melhoria na segurança do paciente.

O método funciona por três razões principais. Primeiro, ele obriga o emissor a organizar suas ideias antes de falar, o que torna a mensagem mais clara. Em seguida, como o receptor também conhece a estrutura, ele sabe o que esperar e consegue absorver melhor as informações. E por fim, o SBAR encoraja profissionais a darem sua opinião (na Avaliação) e fazerem pedidos claros (na Recomendação) — algo que hierarquias rígidas costumam inibir.

“O processo de comunicação precisa incluir os fatos relevantes, ser compreensível e conciso, para evitar perda de tempo e de atenção. Ao padronizarmos a passagem de plantão com SBAR, conseguimos diminuir até o banco de horas da equipe.”

Sandra Cristine da Silva, Gerente de Enfermagem, Rede D’Or São Luiz

Resultados documentados

Na prática, hospitais que implementaram o SBAR relatam resultados consistentes, por exemplo, um estudo conduzido na Irlanda por Meester et al. (2013) mostrou que a adoção do SBAR reduziu mortes inesperadas de 0,99 para 0,34 por 1.000 admissões.

O mesmo estudo mostrou que, após o treinamento em SBAR, o registro de eventos adversos graves aumentou de 4% para 35% — não porque os eventos aumentaram, mas porque passaram a ser identificados e reportados com mais frequência.

Outro benefício consistente é a redução do tempo de passagem de plantão. Pois quando todos seguem a mesma estrutura, menos tempo é gasto “explicando o óbvio” e mais tempo sobra para discussão de casos complexos.

Como implementar o SBAR na sua instituição

A implementação do SBAR não requer grandes investimentos, mas exige comprometimento da liderança e treinamento consistente. Veja os passos essenciais:

  1. Engaje a liderança: médicos, enfermeiros-chefes e gestores precisam usar e cobrar o uso do SBAR. Exemplo vem de cima.
  2. Treine toda a equipe: não apenas enfermeiros — médicos, técnicos, fisioterapeutas. Todos que participam de transições de cuidado.
  3. Crie ferramentas de apoio: formulários, checklists, cartões de bolso com o roteiro SBAR. Facilite a adesão.
  4. Pratique com simulações: role-play de situações clínicas ajuda a internalizar o método antes de usá-lo com pacientes reais.
  5. Monitore e dê feedback: acompanhe a adesão, identifique barreiras, celebre melhorias. A mudança cultural leva tempo

Variações do SBAR

O SBAR original evoluiu para atender diferentes necessidades. As variações mais comuns são:

ISBAR — Adiciona “I” de Identificação no início, enfatizando a necessidade de identificar claramente o profissional que fala, o paciente (nome, data de nascimento, leito) e o contexto.

SBAR-R — Adiciona “R” de Review/Response ao final, criando um momento para o receptor confirmar que entendeu todas as informações e fazer perguntas.

ISBARR — Combina as duas variações anteriores: Identificação + SBAR + Revisão.

Apesar das diferenças, todas as variações mantêm o mesmo princípio, que é estruturar a comunicação para evitar a perda de informações críticas dos pacientes.

SBAR e tecnologia: potencializando resultados

O SBAR é uma metodologia, não uma ferramenta tecnológica. Mas quando combinado com sistemas de comunicação adequados, seus resultados são potencializados.

Plataformas que centralizam informações facilitam o acesso ao Background. Ao mesmo tempo, sistemas de comunicação instantânea garantem que a mensagem chegue à pessoa certa, no momento certo.

A tecnologia não substitui o SBAR — ela remove barreiras para que o método seja usado de forma consistente e eficaz.

Equipe Strivium


A Strivium desenvolve soluções tecnológicas para melhorar a comunicação e a gestão de equipes na área da saúde. O Strivium Link é nossa plataforma para coordenação de cuidado hospitalar.

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