O custo oculto dos exames duplicados no SUS

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dois médicos e uma enfermeira analizando um exame

Enquanto milhões de brasileiros esperam meses por uma consulta ou exame, o sistema de saúde desperdiça bilhões repetindo procedimentos que já foram realizados. Mas qual a raiz do problema? A falta de comunicação entre profissionais e sistemas.

Para entender melhor, imagine que um paciente chega à emergência de um hospital público e o médico plantonista solicita uma série de exames, mas no dia seguinte, esse mesmo paciente é transferido para outra unidade. Então, como o novo médico não tem acesso aos resultados anteriores, ele solicita novamente os mesmos exames.

Isso pode parecer um caso isolado, porém não é, segundo dados da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), aproximadamente 20% dos exames laboratoriais solicitados no Brasil são repetidos de forma desnecessária.

Esse desperdício silencioso não aparece nas manchetes, mas drena recursos que poderiam estar salvando vidas.

Os números que ninguém quer ver

Segundo a Abramed os dados são alarmantes. Em 2023, os brasileiros realizaram cerca de 2,4 bilhões de exames diagnósticos no SUS e na saúde suplementar, representando um crescimento de 11% em relação ao ano anterior.

No entanto, esse aumento não reflete necessariamente um cuidado melhor. Estima-se que entre 25% e 40% dos exames laboratoriais sejam desnecessários. Em grande parte, esses exames são repetidos porque os profissionais não conseguem acessar resultados anteriores, enfrentando insegurança diagnóstica ou falhas de comunicação entre equipes.

Além disso, o desperdício não se limita aos laboratórios. Estudos do IESS indicam que entre 12% e 18% das contas hospitalares apresentam cobranças indevidas, ou seja, procedimentos que não deveriam ter sido realizados.

Por que isso acontece?

A resposta curta: falta de comunicação e fragmentação da informação.

Na prática, quando um paciente passa por diferentes pontos da rede — UBS, UPA, hospital — cada unidade atua como uma ilha, de forma isolada, onde os sistemas não se integram e o histórico do paciente não acompanha sua jornada.

Consequentemente, o médico da emergência não sabe quais exames o paciente realizou na UBS na semana anterior. Da mesma forma, o especialista não visualiza o que o clínico geral solicitou e como resultado, cada profissional começa do zero.

⚠️ As causas do desperdício

  • Sistemas não integrados: prontuários eletrônicos que não conversam entre unidades de saúde
  • Resultados inacessíveis: exames realizados, mas resultados presos em sistemas isolados
  • Pressão por tempo: é mais rápido pedir novo exame do que procurar o anterior
  • Cultura do “pedir para garantir” medicina defensiva que solicita exames por precaução, não por necessidade
  • Falta de protocolos: ausência de diretrizes claras sobre quando repetir ou não um exame

O impacto vai além do dinheiro

Embora o impacto financeiro seja significativo, ele representa apenas a ponta do iceberg.

Quando recursos são consumidos por exames desnecessários, eles deixam de atender quem realmente precisa.

Cada ressonância repetida sem necessidade significa um paciente a mais na fila de espera. Da mesma forma, cada hemograma duplicado é tempo de laboratório que poderia estar processando exames urgentes.

Além disso, o paciente sofre diretamente as consequências: exposição desnecessária à radiação, coletas de sangue repetidas e ansiedade ao aguardar resultados que já existiam.

Como destaca o oncologista e pesquisador da FMABC, Dr. Daniel Cubero:

“Quando se faz um exame que não era necessário, há o risco inerente ao próprio procedimento e também o risco de encontrar alterações sem relevância clínica que vão gerar uma cascata de novos exames e investigações fúteis.”

Casos reais de transformação

Felizmente, o problema tem solução e exemplos práticos comprovam isso.

Por exemplo o Hospital Estadual de Urgências de Goiás (HUGOL) que implementou um projeto de gerenciamento de exames duplicados e alcançou resultados expressivos, onde antes da intervenção, 15% dos exames laboratoriais eram duplicados, o que representava cerca de 10.800 exames por mês.

Após a adoção de controles de comunicação e alertas no sistema, o hospital reduziu a taxa de duplicidade para 11% e cortou 42% dos custos com exames repetidos.

Além da economia financeira, como resultado, o tempo médio de liberação de exames urgentes caiu de 3h32 para 2h54, uma melhora de quase 11%.

Como resolver o problema:

  • Integração de sistemas: prontuários que acompanham o paciente entre unidades de saúde
  • Alertas de duplicidade: sistemas que notificam quando um exame similar já foi realizado recentemente
  • Protocolos baseados em evidência: diretrizes claras sobre indicação e periodicidade de exames
  • Comunicação entre equipes: ferramentas que facilitam o compartilhamento de informações clínicas
  • Educação continuada: capacitação sobre uso racional de recursos diagnósticos

O papel da tecnologia

A tecnologia é parte fundamental da solução, mas não qualquer tecnologia. Sistemas fragmentados — um para cada setor, um para cada unidade — são parte do problema, não da solução.

Por outro lado, soluções que centralizam informações, oferecem acesso rápido ao histórico do paciente e alertam sobre exames já realizados mudam completamente o cenário. Além disso, essas ferramentas fortalecem a comunicação entre profissionais de diferentes plantões e setores.

O próprio governo federal reconhece essa necessidade. O Programa Mais Acesso a Especialistas, lançado em 2024 com investimento de R$ 2,4 bilhões, aposta na integração digital e na telessaúde para evitar deslocamentos e encaminhamentos desnecessários.

O que sua instituição pode fazer hoje

Apesar da complexidade do problema, não é preciso aguardar grandes reformas estruturais para agir. As iniciativas locais já geram resultados concretos.

O primeiro passo é mapear a realidade: qual é a taxa de exames duplicados da sua instituição? Quais exames se repetem com mais frequência? E em quais setores o problema é mais crítico?

Com esse diagnóstico em mãos, é possível implementar controles simples, como alertas no sistema, checklists na solicitação de exames e canais de comunicação mais eficientes entre plantões.

O case do HUGOL mostra que é possível reduzir custos em mais de 40% com intervenções focadas. A pergunta é: quanto sua instituição está perdendo enquanto não age?

Equipe Strivium

A Strivium desenvolve soluções tecnológicas para melhorar a comunicação e a gestão de equipes na área da saúde. O Strivium Link é nossa plataforma para coordenação de cuidado hospitalar.

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